terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Semente da Terra

Uma família indígena aprende a se acostumar com a vida urbana de Curitiba, mesmo que os moradores da capital não percebam sua presença

A manhã de quarta-feira começa ensolarada na praça Osório. São 9h46, Alcino chega apressado e deixa suas bolsas e sacolas embaixo de uma árvore. As havaianas azuis casam com a camiseta branca e bermuda amarela. Mas, o que mais chama atenção nele são as sementes ligadas por uma linha que estão em torno do pescoço e tornozelo, ou o objeto da espessura de um cigarro que está em uma de suas orelhas. A alguns passos atrás de Alcino andam Fátima, sua esposa e Dandara, a filha mais nova do casal, que acabou de fazer um ano. Elas também carregam características de uma etnia que habita há muito tempo em Curitiba – eles são índios.

Alcino de Almeida tem 51 anos, é cacique da tribo kaingang que vive na aldeia Cambuí, na Região Metropolitana de Curitiba. Hoje a aldeia é democrática. A escolha do cacique é feita por meio do voto. São separados três balaios. Um com feijão preto, outro com feijão branco e um vazio. O nome do candidato a cacique fica junto ao balaio com feijão de sua cor. Para votar, a pessoa escolhe um deles e coloca o feijão no balaio vazio. Vira cacique quem tiver mais feijões de sua cor. Na aldeia do Cambuí existem 370 índios, votam todas as pessoas com mais de 12 anos.

Enquanto Alcino explica a eleição, Fátima e Dandara vão montando a barraca. Encaixam peças de metal e abrem o guarda-sol verde. Retiram de uma das bolsas colares feitos de joerana, semente muito semelhante à de melancia. Também utilizam a chamada olho de boi, que tem o formato de um feijão gigante com cor de terra vermelha, e a semente sagrada do kaingang, que tem o mesmo formato da joerana, mas cinco vezes maior, em cor café ou caramelo. Fátima pendura calmamente um colar por vez. Ela tem 34 anos, cabelo comprido preto e brilhante, um olhar sereno e sorriso tímido. É a segunda esposa de Alcino. Juntos têm quatro filhos, Denise, de 18 anos, Daniele, 13 anos, Douglas, 10 anos e a Dandara que sempre acompanha o casal na venda do artesanato. A menina anda meio hesitante, dá passos curtos ao redor da banca com seu brinquedo, uma vara de 30 centímetros com cinco barbantes na ponta, de tamanhos diferentes. Nas pontas dos barbantes estão pendurados desenhos de peixes feitos em papel sulfite. Dandara levanta o brinquedo e vê os peixes se movimentarem com o vento.

Alcino recorda da mesma alegria quando teve seu primeiro filho, há 33 anos, quando o cenário ainda não era Curitiba. O cacique é natural de uma tribo de Biguaçu, Santa Catarina, onde seu pai vive até hoje. Veio para Curitiba em 1973 estudar Direito com a esposa Adriane, estudante de Medicina na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Eles já tinham três filhos, Alcino, Fábio e Jak Douglas, depois tiveram aqui a quarta filha, Viviane. Porém, quando estava no último ano de Medicina, Adriane descobriu que tinha leucemia e faleceu no mesmo ano que se formou. Alcino teve que parar a faculdade de Direito para sustentar as quatro crianças por meio do artesanato. Hoje, os três filhos são formados em Direito e Viviane em Psicologia. Eles foram para Santa Catarina morar com o avô. Todos estudaram em universidade pública e sem o benefício das cotas. “Eu estou terminando o curso de Direito, mas também por minha conta. Nunca usei uma caneta da Funai. Eu acho uma discriminação essas cotas”, desabafa Alcino. Em 2006, ele prestou vestibular para Administração na UFPR e passou em 9º lugar, mas não se matriculou, prefere terminar o curso de Direito.

Já são mais de 11h da manhã, as barracas foram montadas e recebem os primeiros visitantes. Quatro homens da aldeia se reúnem para conversar e mimar Dandara. A hora de almoçar está próxima e é uma preocupação a mais de Alcino. Cada índio gasta 10 a 12 reais por dia para comer, muitas vezes passam mal, pois não estão acostumados com o excesso de óleo e temperos da comida dos restaurantes. Os kaingangs costumam cozinhar com fogo à lenha, usam banha animal e menos sal. “Comemos arroz, feijão, milho. Milho de várias formas, farinha ou canjica. Todo dia tem que ter milho na comida do índio. É difícil porque na cidade a gente come e depois de uma hora está com fome de novo”, conta Alcino.
Outra dificuldade é encontrar banheiro. Às vezes, emprestam de um restaurante próximo, mas geralmente utilizam o móvel da Prefeitura, que é pago.

Passam olhando a família de índios senhoras loiras bem vestidas e andar majestoso, jovens de cabelos coloridos com mochila nas costas e celular na mão, mães cuidando para o filho não brincar com o artesanato. Eles não imaginam que há 4 mil anos quem habitava o Paraná eram apenas os kaigangs. Até mesmo o nome Curitiba é indígena, escrito originalmente Curytjbá, quer dizer terra de muitos pinhões na língua tupi.

Alcino espera que no futuro os índios tenham mais reconhecimento. “Nós estamos treinando nossos jovens, de 12 a 16 anos para serem guerreiros. Mas não para lutar contra a espada e baioneta do passado, mas contra o poder da caneta. O massacre continua desde 1500, não acabou”. Enquanto fala da luta, sua mão se fecha e bate na perna três vezes. Além de direitos garantidos na Constituição Federal, a comunidade kaigang tem 50 leis próprias. Quem desrespeita uma vírgula é punido e Alcino garante que as regras funcionam.

Um vento forte repentino passou na Praça Osório, desorganizando os brincos e colares que Fátima tinha acabado de arrumar. A filha também ajeita os brincos, ou pelo menos tenta. A tribo kaingang sabe que seu futuro está nas mãos de meninas como Dandara. Ela e as outras crianças da tribo já plantaram uma árvore. Cada um tem a sua. Quando crescer, saberão que aqueles troncos, galhos e folhas existem por sua causa. Alcino faz um pedido ao homem branco, que ele tenha mais consciência em relação à preservação. “Eu podia pedir a cada um que pudesse ensinar seus filhos, a juventude de hoje vai ser o amanhã, os grandes líderes do futuro, que eles possam preservar mais a natureza”.

3 comentários:

Tales disse...

Reportagem sensacional! Incrível saber q em uma região metropolitana existe uma tribo indígena - e q se faz ser respeitada! Fantástica também a história de sucesso nas faculdades que a família do Alcino obteve. Eu só gostaria de saber como eles conseguiram isso, qual foi o método, se estudaram por conta própria. Muitíssimo interessante! Pelo jeito o blog vai bombar mesmo!

Marcelle Souza disse...

Adorei!
Viva os índios que nos deram histórias tão bacanas e que nos fizeram merecer uma vaga com esse povo bacana do Rumos.

Parabéns Eve!
Achei bem sensível e de uma força tremenda a história de vitória desse homem..

bjo!

Géssica Valentini disse...

Eve!!!!

Eu já tinha lido a reportagem, mas li de novo com muitooooo gostooo...repito que ficou maravilhosa. As palavras certas e uma história brilhante!

Parabéns mil vezes... pelo talento, sensibilidade, ousadia... não tenho dúvida que muitos outros prêmios virão!

beijão