terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Burburinho, Cochichos e tudo o mais que se quiser


Uma garrafa verde de cerveja sobre uma das mesas. Um local escuro, pequeno, com tijolos à vista nas paredes. Destas, uma azul, com ridículas estrelinhas coladas em toda a extensão. Sobre as estrelinhas um telão branco. Um projetor multimídia está estrategicamente encarrapitado à frente. Pelo espaço está a massa cool, e cult, da cidade. Considerando que se possa chamar duas centenas e meia de massa. São universitários, pequenos poetas, garotos de cabelo comprido e meninas de cabelo curto. Dentro de pouco tempo realizar-se-á a segunda Pecha Kucha Night do Brasil.

Júlia Timm, de Porto Alegre

Assista a apresentação de Camila Mazzini



André Czarnobai é um jovem porto-alegrense conhecido por toda a “massa” que aguarda. Organizador de fanzines nos idos 90’s, rendeu-se à tecnologia, e hoje, além de jornalista, administra o portal Qualquer, que abriga “egotrips, viagens, crônicas” e outras coisas de pretensão jornalístico-literária, escritas por amigos e pelo próprio. Nos primórdios da rede, a reunião chamava-se Cardoso Online, e era só um blog. Virou site, depois portal. Tão simpático quanto lendário, André assumiu a alcunha de Cardoso, e é figurinha carimbada na mitologia semi-pop-cult de Porto Alegre.

Cardoso descobriu a Pecha Kucha Night quando ficou sabendo que ocorreria uma em Buenos Aires. Foi para a rede entender o que era. Pecha Kucha, em japonês, é a palavra equivalente a burburinho, cochicho, aquele som produzido quando duas centenas e meia de pessoas conversam “discretamente” ao mesmo tempo. “A Pecha Kucha nasceu quando os designers se deram conta de que dar um microfone na mão dos designers era um perigo”, conta André. Na verdade, ele parafraseia o site oficial do evento: “give a mike to a designer (especially an architect) and you'll be trapped for hours”.

Pecha Kucha Night é uma marca registrada dos sócios Astrid Klein e Mark Dytham, donos da Klein Dytham Architecture, um escritório de arquitetura e design de Tóquio, no Japão. Eles inventaram o formato para divulgar um prédio de eventos que construíram, o SuperDeluxe, em 2003. A idéia era que profissionais e estudantes dessas duas áreas se reunissem para trocar experiências e mostrar seus portfólios e trabalhos em andamento. Mas havia o medo declarado de que cada apresentação se tornasse um monólogo de um não-talentoso orador formado em arquitetura.

A idéia, simples, foi tão exitosa que rendeu uma patente, se não lucrativa, famosa. Hoje, o evento ocorre em mais de 80 cidades ao redor do planeta. Cada apresentador tem direito a exibir vinte imagens. Cada imagem pode permanecer em exibição por vinte segundos. A fetiche da noite: o evento deve começar pontualmente às 20:20 do horário local. A última preocupação com extensão é que cada evento pode ter, no máximo 14 participantes. Eram essas as cláusulas que estavam previstas no contrato que, depois de alguns meses de negociação Cardoso conseguiu fechar com a Klein Dythan Architecture. Ele previa ainda que pelo menos quatro Pechas Kuchas deviam ser realizadas no período de um ano.

Cardoso entrou em contato com a KDA, e manifestou seu interesse em produzir uma versão brasileira do evento. Ele se surpreendeu ao saber que não haviam sido realizadas “nem em São Paulo”, pois a idéia não era novidade. Criado em 2003, o evento já estava na 41ª edição em Tóquio. Dez meses depois do começo das negociações, Porto Alegre ainda é a única cidade do Brasil a ter uma Pecha Kucha Night. Cardoso teve de enviar o currículo, provar sua ligação com o design, e garantir que não teria de lucro financeiro. A KDA também não ganha nada com a patente. Ela licencia o uso do nome e do formato por período de um ano, e o detentor dessa autorização só pode organizar o evento só em sua cidade-residência.

Assim que Cardoso obteve a licença, entrou em contato com Paulo Scott, um escritor que já organizava encontros entre artistas de linhas diferentes (atores e literatos, músicos e pintores...), para o ajudar na empreitada. Os participantes da primeira foram convidados pelos dois: cada um escolheu seis dos apresentadores (o décimo terceiro e o décimo quarto foram os próprios idealizadores). Como a patente é só do formato, o conteúdo é livre, cada apresentador pode fazer o que quiser com seus seis minutos e quarenta segundos. Já houve quem cantou, dançou, apresentou esquetes, fez performance, subiu no palco e ficou em silêncio. E até quem apresentou portfólios de arquitetura e design. Não aqui. Nenhum arquiteto se apresentou nas duas edições brasileiras.

Às 20:20, Paulo Scott abre os trabalhos. Com pinta de comediante stand up, André Czarnobai aka Cardoso recepciona o público. “Puxa, você vieram”. De acordo com Marcelo Träsel, um dos colaboradores do Qualquer, jornalista e professor universitário, o público era mais ou menos o mesmo da primeira edição do evento. A divulgação daquela havia incluído spots no rádio, cartazes, flyers. Essa foi no esquema de networking: e-mails, Orkut, boca-a-boca. O conceito da festa, de cochicho, deu efeito.

Douglas Dickel sobe ao palco, dá o endereço de seu Flickr, e Träsel, amigo e apoiador de Cardoso, elevado, dessa vez a participante e a operador de projeção do evento, solta suas imagens. O fotógrafo se agacha no palco, de costas para a platéia, e deixa rolar a apresentação, permanece em silêncio. As imagens de musgos e liquens sobre variados suportes sucedem-se vinte vezes, entremeadas por um som que dá a impressão de televisão fora do ar, até que um apito forte no último diapositivo assusta o público e desperta risadas moderadas.

Träsel é o segundo a apresentar. Não abandona seu posto no comando da projeção. Tímido, responsabilizou-se pela produção da apresentação, mas não sobe ao palco para mostrá-la. Quem o faz são Pablo Sotomayor, músico, e Tati Rosa, bailarina e namorada de Träsel. A idéia da apresentação surgiu na primeira Pecha Kucha, com a empolgação que os tomou. Sentimento compartilhado com outros vinte espectadores que se candidataram naquela ocasião, para participar dessa segunda edição. Na tela, a cada vinte segundos uma pedra redonda aparece. Elas vão se organizando cuidadosamente de baixo para cima, como que a se empilhar. Sotomayor toca uma espécie de xilofone ao vivo, no palco, e Tati faz improvisações de dança. A performance toda, de acordo com Träsel foi atrapalhada por problemas com o som. E ele não quer repetir. “Já participamos, agora só como espectadores”. As pedrinhas eram uma referência à cultura budista, do mani stone, pedras que os viajantes deixam por onde vão passando, como explicou Träsel, dias depois. Cardoso, ao fim da apresentação, lança “Que diriam os japoneses diante de todas aquelas pedras se acumulando na tela? Marcelo Träsel, você tem uma mente intrigueira. Penso em muitas coisas, como, por exemplo, a ordem da terra, penso no consumo de drogas, crack e essas coisas, e penso em várias coisas que não vêm ao caso no momento. No momento o que vem ao caso é que talvez seja interessante saber se a próxima apresentação está devidamente formada e pronta para subir ao palco. Eu preciso de um positivo, um sim ou não... Disse sim? Então, a partir de agora, Milton Colonetti e Naja Band tomam o controle da Pecha Kucha Night Porto Alegre”.

Seis rapazes e uma garota tomam o pequeno palco, após ainda certa demora do som e luz unirem-se dão início a uma performance sobre uma certa girafa em perigo. Non sense? A Balada da Girafa Moribunda teve problemas: o laptop que hospedava o vídeo se desligou misteriosamente. Milton Colonetti lia com tamanha venalidade que nem sequer reparou no erro. E o público gostou tanto da Balada que exigiu bis no final, para compensar os problemas técnicos.

Cardoso, bem humorado, a cada erro dos laptops amaldiçoava Steve Jobs e Bill Gates: o protótipo dos geeks profanava a sacrossanta informática. Apesar dos esforços de Träsel, que recolheu e revisou todas as apresentações, a maioria em Powerpoint, algumas em vídeo, as máquinas faziam aquilo que, em geral, fazem de melhor: deram pau. Träsel ri das situações e, com calma, responde, “é que nem na televisão, não pode parar”.

Assista a apresentação de Marcelo Guidoux Kalil e Val Kuhn





As apresentações incluem fotos, pinturas, videoarte, e uma inédita conferência sobre os possíveis efeitos nefastos do Tetris na vida dos jogadores compulsivos do desafio russo de empilhar tetraminós ao limite do infinito. Quem ocupa por último o palco é Viv e os Timoneiros, um grupo que entoa mantras, meio hiponga, que usa todo o seu tempo em uma única música. Depois deles Milton, Naja e sua girafa voltam, para embalar as despedidas das duas centenas e meia, que desapareceram em poucos minutos. Eles provavelmente voltarão no dia 3 de novembro, para a terceira Pecha Kucha Night Porto Alegre.


Assista a apresentação de Guilherme Dable



Site oficial da Pecha Kucha Night Brazil


Local onde se realiza o evento

Créditos: Os vídeos são de responsabilidades dos próprios apresentadores, devidamente creditados, e foram disponiblizados no You Tube após o evento. A imagem que ilustra a matéria é de Carla Barth, e é um reprodução do cartaz do evento.




Esta matéria foi escrita em julho de 2007. De lá para cá, mais uma Pecha já foi realizada, e Tóquio já está na 48ª, que aliás se realiza amanhã, lá, no SuperDeluxe!

2 comentários:

Taynée Mendes disse...

que festival legal.... qdo vai ter no rio???

Géssica Valentini disse...

Ahhh...muito interessante!!!! Existe mesmo? hehehe

Uma idéia maravilhosa divulgar eventos culturais como este... e a matéria foi muito bem escrita!

Parabéns Julia!!