quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Tatuagens, penas e tradição

A dança do Bate Pau como mecanismo de resgate cultural para os índios Terena em Campo Grande


Os sons do tambor e da flauta misturam-se ao chocalho das sementes; os corpos estão pintados e os passos são bem marcados. O cenário da apresentação é uma praça no centro da cidade, mas ela parece não combinar com seus atores principais. As penas e as roupas feitas de buriti refletem a realidade de um grupo de pessoas que não se encaixaria no que se define como o modo de vida urbano.

A cena é a de uma apresentação da dança do Bate Pau, típica dos índios Terena, que aconteceu no Parque Belmar Fidalgo, no centro de Campo Grande. Em meio prédios e a fumaça de automóveis, roupas feitas com penas caracterizam a população que mora na aldeia Água Bonita, a segunda aldeia urbana da capital de Mato Grosso do Sul.

Ela surgiu há seis anos e reúne índios Terena e Guarani-kaiowá vindos de várias aldeias do interior do Estado. Algumas casas são de alvenaria e pintadas com desenhos indígenas, enquanto outras revelam a pobreza de uma população que trocou seu lugar de origem por um conjunto de lonas que formam suas moradias. Nas ruas sem asfalto, levanta a poeira do seco mês de agosto.

As crianças brincam à vontade, as pessoas conversam em frente às suas casas e a música sertaneja se mistura aos hinos da igreja evangélica. Não há portões e todos se conhecem, como se fosse uma cidade dentro de outra cidade. A língua portuguesa convive naturalmente com palavras e expressões das duas etnias.

Lúcia Mara de Oliveira mora em uma casa pequena, têm quatro filhos e está grávida de cinco meses. Há um ano saiu da aldeia Bananal em Aquidauana, localizada no oeste de Mato Grosso do Sul, para tentar uma vida melhor na capital.

O sofá velho sustentado por um tijolo em cada pé, do lado de fora da casa, feita com pedaços de madeira e forrada com uma grande lona preta, representa para a família dessa mulher a vida que não tinham na aldeia onde moravam.

De dentro da casa, que parece ser improvisada, sai um adolescente de 13 anos, o filho mais velho de Lúcia. Marlon de Oliveira faz parte de um grupo de homens que apresentam a dança do Bate Pau para aproximar a cultura Terena dos índios e não-índios que vivem em Campo Grande.

Ele traz uma sacola de supermercado com os trajes da dança.

- Foi o pai dele quem fez. – explica a mãe de Marlon.

Tímido, o garoto tira da sacola a saia e o cocar feitos de pena de Ema e se veste. O corpo ainda em desenvolvimento revela um pouco da rebeldia característica da adolescência; ele tem tatuagens pelo corpo feitas por ele mesmo.

- Eu peguei uma máquina emprestada com um amigo e fiz.

- E você fez por quê?

- Porque acho bonito.

As marcas mostram a precariedade da arte: o desenho é mal feito, os contornos imprecisos e o conjunto levemente assimétrico. Em cada dedo uma letra da palavra Jesus, na mão direita, um outro desenho quase apagado, e no bíceps esquerdo ele tatuou uma cruz. A família freqüenta a igreja evangélica construída dentro da aldeia.

Vestido com as roupas terena, Marlon fica envergonhado, olha para baixo e ri com embaraço. Ser adolescente numa aldeia não deve mesmo ser tão fácil: a tradição indígena às vezes parece se opor à cultura urbana. Mas cultura é dinâmica e esse menino mostra que é possível ser índio dentro da cidade.

Direito à diferença

A etnia terena é descendente da nação Guaná, povo que habitava a região do Chaco, uma área de transição entre a zona subandina e as planícies andina e amazônica. Por causa da Guerra do Paraguai, eles tiveram que sair em busca de refúgio, o que fez com que uma parte fosse para a Serra de Maracaju, na região oeste de Mato Grosso do Sul.

Com o tempo, passaram a se relacionar com outras populações e se integrar ao outro modo de vida. A partir da introdução da pecuária no estado, começaram a ser explorados para trabalhar nas fazendas durante o período do Império no Brasil. Dessa forma, deu início a integração entre os terena e as populações locais.

Hoje, eles somam 32.519 pessoas em Mato Grosso do Sul, de acordo com dados da Fundação Nacional do Índio, colocando o estado como o segundo em população indígena do país. Um grande número deles mora nas regiões urbanas e vivem o desafio cotidiano de serem índios na cidade.

A antropóloga Luciana Scanoni explica que “a dança do Bate Pau é um momento de celebração e de reconhecimento da sua cultura” e portanto, mostra-se como “uma ferramenta política de integração entre os próprios índios, mas também com o resto da população da cidade”. Ela acrescenta que “a dança está muito relacionada ao contexto político de luta pelo orgulho de ser índio e pelo direito à diferença”. A antropóloga define ainda cultura como “algo mutável” e que “o fato do índio morar na cidade não lhe tira a característica de seus antepassados”.

A dança é um mecanismo de ressignificação da cultura para os índios terena. Eles mantêm características tradicionais, adaptando-as à realidade local. Por isso é comum, por exemplo, encontrar pinturas e roupas diferentes para a mesma dança em aldeias dentro de Mato Grosso do Sul.

Na aldeia urbana Água Bonita há um intercâmbio com a aldeia Bananal, em Aquidauana. Periodicamente, índios aldeados vêm à cidade para ensinar a dança aos mais novos. O cacique Adierson Venâncio Mota diz que isso acontece para “resgatar a cultura terena nos jovens índios urbanos”.

- Na aldeia é mais fácil manter a cultura e aqui na cidade é mais difícil. Os jovens só querem saber de coisas modernas, roupas modernas, então eu ficaria muito decepcionada se meus filhos não seguirem a tradição - confessa Lúcia Mara.

E a mãe de Marlon explica sorrindo que foi o pai que ensinou o menino a dançar quando tinha apenas oito anos:

- Desde pequeno, o pai dele ensinou a ser índio de verdade!

Lucia mostra fotos e fala do empenho do filho durante um concurso de dança indígena na aldeia onde moravam. As roupas são feitas com esmero, as penas de Ema são presas uma a uma, mostrando o porquê a dança também recebe o nome desta ave.

Antes de apresentações todos se unem na oca, uma construção central da aldeia Água Bonita. Jovens e adultos compartilham a responsabilidade de representar sua etnia através dos passos marcados da dança.

Os primeiros passos são lentos, lembrando os passos do Jaburu, uma ave aquática da fauna pantaneira. Os homens formam duas fileiras e são guiados pelo chefe que fica na ponta. Em seguida, imitam os passos da Ema e retornam ao início. Guiados por palavras em Aruak – idioma terena - eles simulam uma guerra, arremessando os bambus uns contra os outros. No final da dança, uma homoneagem: os paus são cruzados em baixo para que o cacique seja suspenso.

Nesse momento as peles morenas, as tintas pelo corpo e as saias ganham ainda mais significado para aqueles homens. Seus olhos e sua força indicam a intensidade daquela dança e as pessoas em volta se emocionam. O homem sobre os bambus diz frases fortes na língua Terena, e os demais respondem no mesmo tom. O momento é de convergência. Toda atenção está voltada para a beleza de uma cultura esquecida em meio aos prédios e construções de concreto.

Dança da Ema

Não há consenso sobre a origem da dança do Bate Pau. Para Adierson, cacique da aldeia água Bonita, a dança lembra a vitória da etnia terena na Guerra do Paraguai. A partir desse ponto de vista, seus passos marcam desde a preparação para a guerra até a festividade da vitória.

Porém, para o fundador do primeiro grupo dessa dança em Campo Grande, Eliseu Lili, ela surgiu a partir de “um sonho de um pajé em que estava numa mata, assistiu essa dança e a trouxe para a aldeia”. Para o indígena que veio para a cidade há mais de vinte anos e que não mora em nenhuma das três aldeias, “é um absurdo falar que a dança surgiu depois da Guerra do Paraguai. Ela é um costume do povo e é tão antiga quanto ele”.

Lili é o fundador do grupo Tê, grupo que reúne índios Terena que moram em Campo Grande para apresentações de dança da Ema:

- E por que não “dança do Bate Pau”?

- Por que quem denominou como dança do Bate Pau foram os brancos, já que é a coisa mais marcante durante as apresentações. Mas para nós indígenas a dança recebe o nome de dança da Ema por causa das saias feitas das penas dessa ave e de alguns passos que simulam a movimentação dela – explica Eliseu Lili, enquanto faz uma pintura terena numa bolsa de tecido.

Esse homem alto, pele morena e cabelos pretos e muito lisos mora com sua esposa num bairro de Campo Grande. Seus três filhos são a expressão da miscigenação entre o índio e o branco: têm pele mais clara que a do pai, mas seus cabelos são levemente ondulados, como os da mãe.

Eliseu diz que “seu povo perdeu muita identidade, então é preciso resgatá-la através da dança”. Entre uma xícara e outra de café, conta porque montou o grupo Tê.

- Quando eu cheguei aqui em Campo Grande, na década de 80, os jovens tinham muita dificuldade de entrosamento, existia muita discriminação por “ser bugre”. Eu pensei assim: Como a gente poderia mostrar o lado bonito do Terena? Como podemos mostrar que temos uma cultura rica? E quebrar essa coisa de preconceito. Com a dança eles puderam superar e mostrar uma coisa bonita, mas também deflagrar um movimento para a nossa liberdade, nossa autonomia aqui na cidade

Através da mesma dança, os índios da aldeia urbana Água Bonita vêm lutando também pelo seu reconhecimento dentro da cidade, e Marlon de Oliveira, o jovem morador que um dia sonha em pescar ao lado do seu pai na aldeia onde moravam, representa uma geração que aproxima a tradição da modernidade.

Suas tatuagens não negam a juventude nem ferem sua vontade de ser índio. Ainda na sétima série do Ensino Médio, Marlon é um orgulho para sua família e seu povo. Suas irmãs brincam com as penas de Ema, enquanto ele as observa com atenção. Aos 13 anos, a cultura terena que ele representa não é mais a mesma, adquiriu novos significados, mas continua traduzindo a riqueza e a vitória de um povo.

4 comentários:

janete disse...

Eu conheço os filhos do Eliseu Lili. :)
Parabéns pela matéria, Marcelle.
Eu sabia que daquela letra bonita e aquele capricho todo nos cadernos da mônica sairiam belos textos como este.

Beeijo!
Lara Bakargy Morais.

Evelise Toporoski disse...

Ahh, nossos índios!!

Eles são parte tão importante desse Brasil, estavam aqui primeiro e tem que disputar um espaço em meio as grandes cidades.

Sorte que tem jornalista com sensibilidade para notar seu valor e presença para abrir nossos olhos!
Adorei Marcelle!
Bjs

ofantasticomundodehugo disse...

Só poderia ser MINHA AMIGA ;D

Parabéns Celle, lindo texto, belas palavras, vasta pesquisa e aí está o resultado :)

Denize Vicente disse...

Olá
gostei muito da sua entrevista, também sou moradorada da aldeia, oque voçê relata sobre os jovens indigenas faz muito sentido pois sou uma jovem de 16 anos, antes tihna vergonha de sair, por motivo de comentarios engraçados que faziam sobre nos indios, mais com o decorre do fui copreendendo como isso e importante isso e uma luta, e para nos vencermos essa luta nos indios e não-indios devemos lutar juntos, para que possamos viver em uma sociedade de igualdades, respeito,deveres e direitos compridos.

PARABÉNS PELO SUA ENTREVISTA

DENIZE