segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Internet for all

Pesquisas indicam que 70% dos brasileiros jamais tiveram contato com a internet, mas uma Biblioteca Virtual em Paulínia, interior paulista, aponta o caminho a ser trilhado para que o Brasil não fique de fora da revolução cultural que a web está preconizando

Tales Tomaz

Nem Taj Mahal nem Cristo Redentor. Na rede mundial de computadores, ou simplesmente internet, as sete maravilhas do mundo atendem pelo nome de Google, Second Life, Wikipedia, Youtube, Creative Commons, Napster e Orkut. Além de atrair centenas de milhões de "turistas" diariamente e gerar bilhões de dólares de receita, as sete maravilhas, carros-chefe da revolução cultural que a internet está preconizando, estão redefinindo o mundo como o conhecemos.

Graças à internet e suas maravilhas, transações internacionais podem ser fechadas em minutos. Pessoas de países diferentes podem se conhecer a milhares de quilômetros de distância. Fatos são noticiados no momento em que acontecem. Músicas e vídeos são compartilhados com uma facilidade jamais vista. Com o surgimento da internet, o direito à informação tornou-se um dos novos protagonistas das questões globais. Hoje é praticamente consenso entre os países desenvolvidos que não épossível exercer plena cidadania sem acesso à quantidade e diversidadede informações que a internet disponibiliza.

No entanto, quando se pensa em Brasil, ter acesso aos benefícios da internet ainda não é para qualquer um. O que faz o país acordar para a realidade são algumas pesquisas do Comitê Gestor de Internet no Brasil (CGI.br), cujos dados apontam que cerca de 70% dos brasileiros jamais tiveram contato com a internet. Para piorar as coisas, apenas 20% dos lares contam com um computador pessoal e, destes, apenas 14% têm acesso à internet. Resumindo: apenas 3% dos lares brasileiros têm acesso à rede. Quer comparar? Quase 70% dos coreanos podem ver diariamente seus e-mails e as notícias que mais lhes interessam na rede.

A exceção da regra
Contudo, se você cair de pára-quedas em Paulínia, cidade do interior paulista que fica a meia hora de Campinas, não terá muita dificuldade em acessar a internet. Mesmo sem conhecer ninguém por lá, é só pedir informações para uma ou duas pessoas e você já estará diante da Biblioteca Virtual de Paulínia, projeto da prefeitura onde mais de 50 máquinas estão conectadas à internet. Os habitantes de Paulínia e cidades vizinhas (Cosmópolis, Conchal, Artur Nogueira, entre outras) podem freqüentar a biblioteca seis dias por semana – ela funciona de segunda a sexta, das 9 às 22h, e aos sábados, das 9 às 18h.

Paulínia é um raro exemplo de como um eficiente projeto público pode transformar a vida de uma cidade. Ela é uma das primeiras cidades a investir na democratização da informação e da cultura digital, sem esperar por programas de inclusão do Governo Federal, como o "Computador Para Todos". Tudo bem que a velocidade da internet não é lá essas coisas. Mas rapidez de acesso é algo que não preocupa os usuários, a maioria deles formada por pessoas que não tinham condições de navegar pela web ou nem mesmo conheciam a internet antes da iniciativa local. Nem mesmo a restrição de conteúdo afasta os cidadãos da biblioteca – os conteúdos considerados "nocivos" pela administração têm que ver com pornografia e pedofilia, temas ainda incomuns à pacata cidade. Mas o Orkut e o MSN estão liberados. Bom para manter a interação virtual em dia. E o melhor de tudo: a entrada é gratuita. Isso mesmo, o acesso à web é "na faixa" e o resultado não poderia ser melhor. Cerca de 500 pessoas visitam diariamente a biblioteca, um número bastante expressivo para a cidade.

Cadastrar-se para usar a internet da biblioteca de Paulínia pela primeira vez é muito simples. Com o RG em mãos, em menos de um minuto você já pode pegar a senha e esperar na fila para acessar ocomputador. A palavra "fila" soa ruim? E se ela demorar em média apenas dois ou três minutos? Não é tão ruim assim, não é mesmo? Ainda mais quando se leva em conta que, quando sua vez chegar, você terá esperado pouquíssimos minutos para navegar pela rede por uma hora, com direito a renovação. É verdade que, em horários de pico, a espera aumenta um pouco. Mas nada que desestimule o acesso. A verdade é: na Biblioteca Virtual de Paulínia tem sempre um computador conectado à internet esperando para ser usado.

Não são poucas as testemunhas de que a Biblioteca Virtual mudou o cotidiano de muitas pessoas, até mesmo dando uma mãozinha na hora de fazer tarefas escolares. "Você pode fazer várias pesquisas para a escola e não precisa pagar nada, porque é público", afirma Huelberth Muniz, 16, estudante. Ele não tem computador em casa e não poderia fazer pesquisas pela internet se não fosse a Biblioteca Virtual.

A Biblioteca também facilita as coisas para Crizam César dos Santos, 18. Ele jogava no time do Ipatinga, interior de MG, e foi transferido para o Paulínia Futebol Clube. Como não conhece ninguém na cidade, passou a freqüentar regularmente a Biblioteca Virtual. "Vou conversar com meus amigos que jogam no Ipatinga e com minha família. Se eu não pudesse usar a biblioteca, teria que ligar e sairia bem mais caro", compara Crizam.

Tanto Huelberth quanto Crizam vão à Biblioteca Virtual por motivos diferentes, mas têm algo em comum. Ambos são privilegiados por estarem em contato com a chamada cibercultura sem terem condições econômicas para tanto. Mas a realidade da internet no Brasil continua sendo injusta – os maiores índices de acesso estão principalmente entre as classes A e B.

Quebrando a cabeça
Muita gente – especialmente acadêmicos – quebra a cabeça para saber como incluir aqueles que não têm um tostão no bolso para gastar em lan-houses ou para financiar um computador em parcelas mensais a perder de vista. Após a tímida atuação do "Computador Para Todos", o laptop de 100 dólares é a nova vedete da inclusão digital no Brasil. O principal beneficiado seria o setor educacional, já que a idéia é que cada aluno tenha um laptop para ser usado nas escolas.

Quem lançou o projeto foi o professor Nicholas Negroponte, do MIT (Massachussets Institute of Technology), em 2005. Ele criou a instituição OLPC (One laptop per child, ou "um laptop por criança"). Negroponte acredita que a inserção precoce ao mundo virtual é o caminho mais eficiente e rápido para combater a pobreza, a miséria e o analfabetismo nos países subdesenvolvidos.

O Brasil topou a idéia e já começou a pôr em prática. A professora Roseli Lopes afirma que já há vários desses laptops em testes no País, desde dezembro de 2006. Ela é a coordenadora do LSI (Laboratório de Sistemas Integráveis) da USP, que é responsável pela condução do projeto no Brasil. Mas, para que a iniciativa tenha êxito, alguns obstáculos precisam ser removidos. "Os valores ainda estão acima deUS$ 100. Por exemplo, o laptop da OLPC está entre US$ 150 e US$ 175", afirma Roseli. Com valores como esse, ficaria muito difícil o governo financiar a distribuição desses aparelhos. Mas Roseli acredita que não se deve perder o otimismo. "Uma vez congelada uma especificação e fabricados lotes em larga escala, este valor poderá cair", ela espera.

O preço, no entanto, não é a única barreira. A falta de capacitação dos professores também assusta. Alguns não sabem sequer usar um computador. Apesar disso, Roseli acha que não haverá problemas. "Já fizemos testes com professores que disseram ter computador em casa, mas que nunca usaram, pois quem usa são os filhos. No caso destes novos dispositivos, eles comentaram: 'nossa, é mais fácil do que eu pensava'", garante.

Copyright for all
Depois de vencer os empecilhos de preço do aparelho e do preparo dos professores, a grande preocupação do Governo Federal e das escolas deveria ser muito mais do que a simples alfabetização digital. É preciso integrar os alunos à realidade da cibercultura como espaço globalizado e democrático. Mais do que ensinar os alunos a baixar doYoutube, é fazê-los produzir os próprios vídeos e dividi-los na rede. Além de preparar a nova geração para consultar conceitos na Wikipedia, é necessário capacitá-los para criar seus próprios verbetes. Roseli acredita que a grande vantagem dos programas de inclusão digital é a criação coletiva que a internet permite. "O que eu considero que irá mesmo provocar mudanças são as possibilidades de autoria, principalmente de autoria colaborativa tanto por parte dos professores como dos alunos", destaca.

É essa capacidade de produzir as coisas em colaboração que, muitos acreditam, moverá o mundo daqui para frente. Quem afirma isso é o advogado Larry Lessig, criador do Creative Commons, algo como"criativo coletivo".

A proposta é de uma forma mais flexível e aberta de licenciar produtos. Para se entender a reviravolta provocada pelo CC, é só imaginar que o licenciamento tradicional impedia a alteração do produto e restringia a cópia do mesmo à autorização do autor. Com o CC, nada disso faz sentido. O autor pode autorizar a reprodução total do produto, bem como sua alteração por outros usuários. Na verdade, esse é objetivo: que o produto seja aperfeiçoado por inúmeros outros usuários que não são impedidos pelo famoso "copyright". "Astecnologias digitais abriram um grande panorama de oportunidades criativas", afirma Larry Lessig, ao se referir ao trabalho colaborativo. "O CC ajuda autores e artistas que querem encorajar as pessoas a compartilharem seu trabalho não comercialmente, mas querem manter os direitos comerciais".

Para Lessig, "a cultura brasileira é, por natureza, feita para esse tipo de energia criativa". No entanto, o Brasil ainda está distante dessa realidade. Iniciativas como a Biblioteca Virtual de Paulínia, antes de poderem incluir os cidadãos efetivamente à cibercultura, ainda estão presas à maior necessidade da população: a alfabetização digital. Huelberth e Crizam, os dois usuários dabiblioteca do início da reportagem, mesmo representando uma pequena parcela da população brasileira, ainda engatinham no universo da cibercultura. O que dirá daqueles que nunca tiveram acesso acomputador algum? Depois do feijão com o arroz, quem sabe o Brasil pode sonhar, no futuro (esperamos não tão distante), assumir posição de destaque no mundo da cultura digital. Afinal, como disse Lessig, fomos feitos para "esse tipo de energia criativa". Alguém duvida?

(Reportagem de junho/07)

3 comentários:

Taynée Mendes disse...

Legal essa iniciativa de uma Biblioteca Virtual....bem que nosso amabilissimo presidente podia investir mais nisso.....

ótima matéria, adorei...

Evelise Toporoski disse...

Super exemplo de inclusão digital, por meio da iniciativa PÚBLICA (se é pública tem q ser de todo msm), como Tales relatou!

Matéria bem interessante!

Géssica Valentini disse...

ótima reportagem... prova de que ainda falta muito para sermos realmente um país "democrático", mas alguém está fazendo algo, isso é o que importa...Parabéns pela sensibilidade de mostrar essa realidade!